27/03/2006

Magias negras

MAGA DA MANHà  (<< cliq)

a Jorge de Lima


Entre a neblina e a brisa desta montanha perdida,
um nome, um fogo me inflama, arde por dentro: Afrodite!

Pelos úmidos recantos dos jardins de minha vó,
nos amávamos sem medo, sem mentiras, sem pudor.

Por meu queixo escorriam os suores dos seus beijos
macios, que misturavam adolescência e pureza.

O mau vento que a levou, levou também o jardim
e a casa - só resta a rua, deformada, às avessas.

Levou consigo as lembranças que fazem pouco de mim
no exílio em que me encerro: sinto falta dos seus lábios,

Sinto falta do seu gosto, do jeito liso e maroto
com que atiçava meu corpo, o seu queimando de gozo.

Os jardins de minha vó, que davam pra rua chique,
tinham na frente camélias, atrás o esplendor de Afrodite

Que corria entre as aléias com suas calcinhas de renda,
umas nádegas coxudas, um perfume de alfazema.

Atrás dela eu vinha, alado, sobre os cachorrinhos mortos,
submersos nos canteiros, e a beijava sem remorsos.

Vênus trigueira, Afrodite, cor da noite, carne, cheiro,
meu desejo abocanhava o melhor do seu recheio.

O mau vento que a levou, levou também todo o resto:
a casa, os seres, os sonhos, como coisa acontecida

Nos pensamentos apenas de quem teve em seus furores
de menino, Afrodite - cabelos cor-de-carvão,

Olhos de noite sem estrela, lábios amanteigados,
coxas de açúcar queimado ao redor do paraíso -

E agora vive no nada, sem a língua, sem os dedos,
sem a sombra das mangueiras, a gemer nesta cantiga.

Negra negra negra flor, puro puro puro amor:
Afrodite em mim resiste, sem mentiras, sem pudor.


poema de Pedro Lage

14:49 Écrit par Kavimbi | Lien permanent | Commentaires (0) |  Facebook |

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